Meu primeiro post no blog um texto de 2012

MEU PÉ DE CARAMBOLA

A primeira vez que escrevi sobre meu pé de carambola eu devia ter uns 11 anos. Na época eu imaginava redigir um livro e cheguei a rascunhar algumas páginas. O sentimento que perpassava o meu ser era um misto de raiva, vingança e desejo de fazer minha mãe se arrepender de ter mandado cortar a minha árvore. O nome do livro era exatamente esse: Meu pé de carambola, e a escolha desse e de todos os títulos que escolhi na minha vida não foi arbitrária. Eu sabia que um dos livros preferidos da minha mãe era O meu pé de laranja lima, de Jose Mauro de Vasconcelos, o qual eu nunca li, mas imaginava, pelo título e pela capa da obra, que se tratava de um menino que amava muito a sua árvore. Sendo assim, eu queria externalizar para a minha mãe a revolta que sentia por estar perdendo algo que eu havia aprendido a amar. Que eu apreciava tanto a minha árvore como o personagem que ela tanto gostava.

Lembro-me de como era gostoso brincar nos galhos da minha árvore. De uma vez que eu, minha irmã e minha prima subimos bem no alto com um baú e lá brincamos de casinha. Recordo-me também que uma vez minha mãe desviou os olhos da minha irmã e quando percebeu ela estava no mais alto ganho da árvore – ela devia ter uns quatro anos: todos ficaram apavorados.

Mas, meus pais queriam reformar nossa casa e não haveria espaço para a mudança com a árvore lá. Eles optaram pelo corte e eu pela casa velha.

Em uma das partes do “livro” eu tentava mostrar à minha mãe que o corte da árvore gerou um desapontamento de toda a comunidade local. Que aquela árvore também era importante para os meus amigos e para os nossos vizinhos. De fato tenho a lembrança dessas pessoas comentando com pesar que nunca mais comeriam daquela carambola. Era uma fruta dividida, compartilhada; sempre aparecia alguém perguntando: “-Oh tia posso pegar uma carambola!?” Haviam muitas e quase o ano todo e minha família não as negada a ninguém.

Em minha árvore havia as carambolas mais saborosas que experimentei. Nenhuma outra foi igual. Em nossas brincadeiras nós fazíamos as maiores e mais doces estrelas. Nós tínhamos um pedaço do céu em nossas mãos.

Não consigo ter certeza se cheguei a entregar esse “livro” à minha mãe. Contudo, tenho a impressão que ele foi guardado e nunca mostrado a ninguém.

Durante quatorze anos esse livro ficou escondido em minha mente. Os rascunhos foram perdidos da mesma forma que boa parte do conteúdo. Acho até que o mais importante aprendizado dessa vivência estava na penumbra até agora. Eu havia aprendido que ao escrever, algo é resignificado em mim de alguma forma.

A lembrança do “meu pé de carambola” ocorreu através da leitura de um caso clínico, onde fora citado que uma criança estava escrevendo em análise o livro da sua vida. A emoção tomou conta do meu ser naquele dia, ao recordar que outrora eu também já desejei escrever um livro.

Pouco tempo depois assisti um filme que me fez chorar muito, sem que a princípio entendesse o motivo. O nome dele é O Primeiro Amor (Flipped) do diretor Rob Reiner. Nessa história a protagonista vivencia uma relação muito especial com uma árvore, que apesar de todas as suas tentativas e reivindicações acaba sendo cortada pela prefeitura. A menina deprime ao ver “a sua árvore” sendo cortada sem que nem mesmo o seu primeiro amor (romance do filme) tentasse lutar com ela para não permitir que isso acontecesse.

Olhando agora não é tão difícil entender o porquê esse romance infantil me emocionou tanto. July (protagonista), assim como eu, foi obrigada a enxergar o poder da Lei que exigia o corte da árvore. Mas, não era uma simples árvore: ela produzia os mais doces frutos, a mais bela sombra, as mais divertidas brincadeiras. Como doeu não poder fazer nada: quanto ódio em senti. E mais uma vez assim como July, fui obrigada a enxergar que aqueles que amo nada fizeram para impedir que ela fosse cortada. Muito pelo contrário eles foram os responsáveis pelo corte.

O que será que foi cortado de forma tão profunda que não pudesse brotar novamente!? Digo que não puderam brotar porque as carambolas nunca mais foram doces.

No final do filme o menino de “olhos deslumbrantes” por quem July havia se apaixonado e que sempre a desprezou, começa a enxergá-la diferente paulatinamente após o corte da árvore. Por fim ele planta uma nova árvore para ela.

Senti vontade de plantar novamente “O meu pé de carambola” é por isso que voltei a escrever isso que um dia denominei que seria um livro.

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